Foi com grande preocupação que a diretoria da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) acompanhou o desenrolar da pneumonia de origem indeterminada que começava a ser noticiada, em 2019, na China e que, em seguida, atingiu a Itália, vindo a receber o nome de COVID-191 . Em fevereiro de 2020, com a chegada do primeiro caso ao Brasil, nossa preocupação aumentou, entendendo o enorme desafio que teríamos pela frente enquanto entidade da área da saúde coletiva.

A Abrasco atuou científica e politicamente para diminuir os danos que o vírus e o governo vigente poderiam causar à população brasileira. Tomou como tarefa atuar rapidamente, realizando um diálogo qualificado com o campo da saúde coletiva, trazendo para o debate os temas diretamente relacionados à pandemia de COVID-19.

Realizado entre abril de 2020 até outubro de 2022, a iniciativa Ágora-Abrasco apresentou 132 painéis, colóquios e seminários, sendo 93 edições só em 2020. Participaram das atividades virtuais sanitaristas, pesquisadores, políticos, gestores e membros de movimentos sociais, do Brasil e de outros países. Uma grande rede de difusão de ideias, que ultrapassou as fronteiras da saúde coletiva, constituiu-se a partir de atividades planejadas que ocorreram semanalmente, mobilizando grande audiência. Com as nossas Ágoras, mantivemos-nos conectados e produzimos novas conexões por todo o tempo de pandemia.

A emergência agravou a crise política do país, instalada desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e maximizada com o Governo Federal empossado em 2019, exigindo de nós uma resposta política firme. No início da COVID-19, as ações erráticas das autoridades políticas e sanitárias na esfera federal contribuíram de sobremaneira para a acelerada perda de vidas que ocorreu em todo o Brasil. A Abrasco contribuiu para expor à sociedade civil a gravidade do momento e o difícil cenário que se podia antever. Iniciamos uma articulação entre as entidades da saúde coletiva – que foram decisivas no movimento da reforma sanitária dos anos 1970 e 1980 –, o Conselho Nacional de Saúde, várias entidades científicas e organizações sociais, resultando na criação da Frente pela Vida. Essa iniciativa foi organizada em torno dos eixos de luta em defesa da vida, do meio ambiente, do SUS, dos direitos sociais e da democracia. Esta iniciativa transdisciplinar atuou firmemente, tanto na exigência de uma resposta para o enfrentamento da pandemia, como na proposição de alternativas para superação da crise.

Este Dossiê consolida o trabalho que desenvolvemos no curso da pandemia. Um período difícil e adverso que nos instigou a refletir e produzir propostas e estratégias, ampliando a atuação da Abrasco. Os textos aqui apresentados foram atentamente construídos com a colaboração de vários colegas, representando o conhecimento acumulado referente às propostas desenvolvidas pela saúde coletiva do país e áreas correlatas para se enfrentar a emergência provocada pela COVID-19 e seus efeitos na sociedade, sem descuidar de apresentar críticas à gestão do Governo Federal em sua desastrosa condução da pandemia.

Nossa análise parte do contexto de intensas desigualdades e iniquidades sociais, no qual o país já se encontrava no período pré-pandemia. Com base nessa realidade, abordamos a crise política, o baixo desenvolvimento econômico e o ataque às políticas públicas exitosas e ao meio ambiente. Mostramos como o SUS se encontrava quando o vírus SARS-CoV-2 se instalou no país. Em seguida, apresentamos nosso entendimento de como tem sido a pandemia no Brasil e sua complexidade, ressaltando os aspectos essenciais para a compreensão de todo o processo e suas consequências. Para finalizar, apresentamos o que a pandemia nos tem ensinado e os desafios que teremos pela frente.

Agradecemos a todas e todos os colegas das diretorias da Abrasco, nos 2 mandatos de luta contra a pandemia, aos respectivos participantes dos conselhos, à secretaria executiva da Abrasco e aos 131 colaboradores e participantes dos Grupos Temáticos da Abrasco que se somaram a nós nesta construção.

Não temos a pretensão de esgotar aqui todas as questões que este duro período vem trazendo para nós sanitaristas e para todos que compartilham conosco este tempo. Com a publicação deste Dossiê, nosso objetivo é apresentar o nosso registro sobre os fatos marcantes deste período histórico singular e o esforço da Abrasco em contribuir com a mobilização social para o enfrentamento desta crise gigantesca. Juntos, seguimos Resistindo e Avançando.

Rosana Onocko-Campos e Gulnar Mendonça

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