O cotidiano como objeto de estudo

 

Nos últimos anos a educação permanente em saúde tem ganho um papel estratégico para gestores, profissionais e instituições. Diversos modelos de formação, ofertados por todo o Brasil, têm acrescentado às suas atividades a discussão sobre a criação, o funcionamento e a efetividade das redes. As limitações e cortes de recursos, agravados pela crise econômica, têm levado gestores e profissionais de saúde a investir tempo analisando como as redes podem garantir o direito à saúde, trazer ganhos de eficiência e melhora na qualidade do cuidado aos cidadãos.

Para ampliar o debate sobre a educação como um processo contínuo de aprendizagem e melhoria dos processos de trabalho e gestão, Região e Redes ouviu Jeane Rego, educadora, enfermeira e especialista em gestão de saúde pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Ela tem participado de processos de formação  em todo o país e nesta entrevista tratou da importância da comunicação e da educação para disseminar conhecimento e práticas que podem empoderar os profissionais e gestores, na busca por soluções que fortaleçam o Sistema Único de Saúde (SUS).

Região e Redes: Por que gestores e profissionais da Saúde devem apostar e investir na educação permanente como estratégia para fortalecer o SUS e garantir serviços e ações de melhor qualidade?

Jeane Rego: Primeiramente, precisamos entender que a educação permanente em saúde se apoia em dois conceitos: “ensino problematizador” (visão crítica da realidade) e “aprendizagem significativa” (interessada nas experiências anteriores dos profissionais somados as suas experiências pessoais). Acredito que a partir do momento que os profissionais utilizam ou constroem espaços, seja em uma passagem de plantão ou em uma roda de conversa multiprofissional, para discutir seus problemas do cotidiano; ou seja, proporcionar troca de conhecimentos, através de um olhar crítico da realidade, somado a experiências e vivências desses profissionais, a busca por soluções em prol de melhorias assistenciais fica mais próximo de ser alcançada e como consequência melhor qualidade assistencial.

O Sistema Único de Saúde (SUS) é um sistema em construção e possui a integralidade como particularidade. Para executá-lo, precisamos incorporar ações de coletividade fundamentais para sua consolidação. Concluo que a educação permanente contribui para produzir mudanças de práticas, seja na gestão ou na atenção, trazendo a necessidade de um amplo diálogo com as práticas e concepções vigentes, proporcionando construir novas pactuações para fortalecer o SUS, assim como aproximá-lo do conceito de integralidade.

RR: Os profissionais e gestores ainda têm um conhecimento frágil e incipiente sobre redes. Seria a educação permanente a alternativa para levar esse conhecimento e disseminar valores do SUS?

JR: Infelizmente, o conceito de rede é pouco compreendido entre os profissionais, mas acredito que a situação atual é um reflexo de um processo que se inicia na graduação.

Os profissionais da saúde saem formados tecnicamente, porém, com deficiência de entendimento da relação transversal entre a educação permanente e a Saúde Pública, gerando descompasso na formação acadêmica pautada no modelo biomédico e na fragmentação do saber. Como consequência, há prejuízos da conexão dos saberes tradicionais, das culturas ou da produção de sentidos ligada ao processo saúde-doença.

 Para que haja o entendimento da rede, do ponto de vista conceitual e prático, se faz necessária a reconstrução dos modelos de gestão, introduzindo novas abordagens no cotidiano, como a gerência participativa, entre outros, que preconizam a descentralização das decisões e a aproximação das equipes de trabalho, com o objetivo de proporcionar a participação do profissional nas discussões, nas tomadas de decisão e no aperfeiçoamento do processo de trabalho, com base na Educação Permanente (EP). Nesse sentido de ação coletiva, a EP tem um papel fundamental de conexão e entendimento da funcionalidade da rede a partir do momento que, segundo Paulo Freire, ela é vista como a construção e reconstrução permanente de significados de determinada realidade e, assim, prevê a possibilidade de o indivíduo agir sobre essa realidade. A adoção de práticas educativas, em qualquer esfera; seja em discussão de processos de trabalho, educação em Saúde, etc., contribui para o fortalecimento da rede.

RR: Na sua experiência, quais as principais dificuldades que os profissionais enfrentam nesses processos de formação?

JR: A maioria dos profissionais apresenta muitas dificuldades conceituais, entre outras, como: entender os princípios do SUS;  entender que o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma construção, formado por ações coletivas e para que ele consiga aplicar seus princípios é necessária a participação do controle social em todos os níveis de atenção e em situações, que vão desde a construção de um projeto terapêutica, respeitando a singularidade e diversidade, às decisões orçamentárias para o SUS. E também um entendimento da educação permanente com uma ferramenta poderosa em prol de melhoria da qualidade assistencial.

RR: Superar a barreira que divide o fazer “prevenção”, “assistência” em relação à “gestão” é quase um sonho. Mas seria possível vislumbrar, através de educação permanente, um profissional que tenha clareza sobre o impacto que seu trabalho tem sobre as decisões? “Quebrar” essa visão de dois corpos sempre separados, mas que deveriam estar juntos?

JR: Sabemos que, com intuito de romper essa barreira, em 2003 foi instituída a Política Nacional de Humanização (PNH) da atenção e gestão do SUS, com o compromisso de democratização dos processos de trabalho, que aposta na indissociabilidade entre os modos de produzir saúde e de gerir os processos de trabalho entre atenção e gestão, clínica e política, produção de saúde e de subjetividade. Com o passar dos anos tais medidas parecem perder as forças, necessitando de sustentabilidade. Para produzir mudanças de práticas de gestão e de atenção é fundamental dialogar com tais práticas, problematizar a realidade do cotidiano do trabalho em equipe. O profissional que entende a importância da EP e vivencia essa realidade, possui mais facilidade de entender o impacto de suas ações individuais sobre as ações coletivas, ampliando, assim, o olhar de que os problemas de atenção refletem na gestão e vice versa.

RR: Quais as principais vantagens da educação permanente em relação a outros formatos de cursos e capacitações?

JR: Cursos e capacitações são atividades de educação continuada, com finalidade mais restrita e pontual de atualização, aquisição de novas informações de duração definida, com intuito de melhorar a capacidade técnico-científica de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, através de metodologias tradicionais. Na maioria das vezes, tal atividade necessita que os profissionais se desloquem do local de trabalho.

 A educação permanente (EP) é aquela realizada no trabalho, pelo trabalho e para o trabalho com os profissionais, sem necessidade de deslocamento. Partindo da reflexão sobre a realidade do serviço e das necessidades existentes, para então formular estratégias de enfrentamento que ajudem a solucionar os problemas encontrados. A EP é entendida como uma atualização cotidiana das práticas, seguindo os novos aportes teóricos, metodológicos, científicos e tecnológicos disponíveis, contribuindo para a construção de relações e processos que emergem do interior das equipes, com seus agentes e práticas organizacionais e incluem as práticas institucionais e/ou interssetoriais. Sendo assim, a incorporação da EP nos serviços é extremamente vantajosa, pois tem no processo de trabalho seu objetivo de transformação e o intuito de melhorar a qualidade dos serviços para atendimento da necessidade da população.

RR: E a universidade nisso tudo? Como poderia ajudar a formar profissionais mais conscientes de seu papel dentro do sistema de Saúde?

JR: A integração ensino-serviço, de responsabilidade não só de universidades, mas de qualquer instituição formadora, como condição de preparar os profissionais de Saúde de forma mais próxima às necessidades da população, levam as instituições a repensarem seu papel na sociedade. Alguns movimentos de mudanças na Saúde, como a Medicina Preventiva, Saúde Comunitária, Medicina Social, a integração docente-assistencial (IDA), estimularam questionamentos e ações de reflexão e revisão do modelo biológico e hospitalocêntrico, característicos da formação e das práticas em Saúde.  

Apesar de muitos movimentos e do entendimento da necessidade de articulação de políticas de Saúde e de educação para a formação permanente de profissionais da área, integrando o ensino superior ao sistema de Saúde, ainda estamos longe de conseguir o que seria ideal. Para que haja mudança efetiva na formação profissional é necessária uma sensibilização, um entendimento e esforços coletivos; pois de um lado as instituições formadoras, com relativa autonomia, com mudanças definidas por demandas e práticas externas e que para ir além da aprovação das diretrizes dos cursos, a efetivação das mudanças na formação necessita de ações, incentivo e acompanhamento. Do outro lado, é necessário incorporar que a formação em Saúde deve ser uma política do SUS e uma proposição governamental, para: efetivar a implantação de diretrizes curriculares nacionais; desenvolver uma educação permanente local para professores e profissionais de Saúde; produzir conhecimentos relevantes para o SUS e para realização do cuidado em Saúde e por fim, construir o ensino em Saúde junto com o sistema de Saúde, estabelecendo uma cooperação técnica para qualificar a gestão e fixar profissionais na rede do SUS.

RR: Apesar da relevância, a questão das redes regionalizadas está ainda circunscrita à Academia e aos gabinetes. É preciso colocar o profissional em outro patamar de conhecimento e responsabilidade sobre as condições que o cercam, permitem ou impedem seu trabalho?

JR: Acredito que o empoderamento virá com o conhecimento. Conclui isso, através da experiência como educadora no projeto GEPPRAU (Gestão Para Educação Permanente dos Profissionais da Rede de Atenção às Urgências) [desenvolvido pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz em estados do Norte, Nordeste, Sudeste e Centro Oeste]. Percebi, com clareza, que os profissionais, tanto da atenção quanto gestores, não apresentam o real empoderamento por falta de conhecimento referente ao SUS. Não podemos propor melhorias e até entender onde estamos inseridos no processo, nossas responsabilidades, se temos problemas conceituais.

 A partir do momento que não nos reconhecemos como participantes de um sistema que 50% das suas decisões são provenientes da população e que a funcionalidade do SUS é através de esforços coletivos, e como consequência, o empoderamento do trabalhador provém dessa junção de forças, fica totalmente difícil se localizar no sistema. 

RR: Se não houver comunicação, educação e articulação com os profissionais o conhecimento sobre redes e o trabalho efetivo em redes não sai do papel …

JR: Sem dúvida nenhuma, um dos principais problemas para o real funcionamento da rede é a falta de uma comunicação estruturada que vai desde o registro dos procedimentos realizados com o paciente até o direcionamento dos mesmos para serviços de maior complexidade.

 A informação estruturada é um ganho para todos, evitando retrabalhos e principalmente contribuindo para intervenções mais resolutivas e sincronizadas com a heterogeneidade e diversidade dos problemas sociais. Em países desenvolvidos a adesão aos processos de interação virtual evita que o usuário fique perdido e são capazes de agilizar a troca de informações entre o governo e sociedade.

 Apesar de alguns esforços para melhoria da comunicação do SUS, como a criação do prontuário eletrônico, entre outros; os problemas estruturais para aquisição de novas tecnologias são diversos, sendo o principal as particularidades de cada região. Porém, para o enfrentamento do problema seria necessário a discussão e o estudo profundo dos processos de trabalho a partir do conhecimento da realidade de cada região. Assim, haveria possibilidade de construir alternativas para estreitar a comunicação entre os trabalhadores e usuários, resultando no melhor funcionamento da rede.

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