Livro: Políticas e sistemas de saúde em tempos de pandemia: nove países, muitas lições

Lições da pandemia: Fiocruz lança e-book com estudos comparativos de nove países

 

Marcella Vieira (Editora Fiocruz)

Uma crise multidimensional, cujas consequências para a saúde das populações a médio e longo prazos são potencializadas pelas desigualdades e pelas situações de alta vulnerabilidade social. É dessa forma que três pesquisadores da Fiocruz, organizadores do e-book Políticas e Sistemas de Saúde em Tempos de Pandemia: nove países, muitas lições, classificam uma pandemia, com foco especial na emergência da Covid-19. Fruto da parceria entre o Observatório Covid-19 Fiocruz e a Editora Fiocruz, o livro foi lançado no dia 6 de abril e está disponível para download gratuito na plataforma SciELO Livros.

Organizado por Cristiani Vieira Machado, Adelyne Maria Mendes Pereira e Carlos Machado de Freitas, professores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), o volume encerra a série Informação para Ação na Covid-19, uma parceria entre o Observatório e a Editora Fiocruz. A obra segue a ideia central da iniciativa encabeçada pelo Observatório: reunir o conjunto de respostas, pesquisas e ações técnicas produzidas pela Fiocruz durante a pandemia, mapeando a evolução do vírus e as ações de enfrentamento.

“A resposta dos países foi bastante variada no que concerne à capacidade de adoção de medidas de contenção e mitigação e à efetividade das ações implementadas”, afirmam os três pesquisadores, no texto de apresentação da coletânea. A pesquisa que originou o livro, intitulada Os Sistemas de Saúde no Enfrentamento à Covid-19: experiências de vigilância e atenção à saúde em perspectiva comparada, abrangeu nove países de três regiões do mundo. Da Ásia foram incluídas a China e a Coréia do Sul, atingidas pela Covid-19 em uma fase mais precoce. Da Europa, a segunda região no decorrer da evolução da pandemia, foram analisados os casos de Alemanha, Espanha e Reino Unido. Na região das Américas, atingida mais tardiamente, quatro países foram estudados: Argentina, Brasil, Canadá e México.

Foram pesquisadas as políticas de enfrentamento da Covid-19 em cada uma dessas nações, considerando seus contextos e características prévias de seus sistemas e coberturas de saúde, além das estratégias adotadas no âmbito da atenção e da vigilância. “O livro também analisa, em perspectiva comparada, esses países, buscando identificar aspectos positivos e limites, bem como extrair lições para o fortalecimento da capacidade dos sistemas nacionais de saúde no enfrentamento desta e de futuras emergências sanitárias”, reflete Cristiani Machado, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz.

Além da inserção dos países em diferentes regiões do mundo e dos números expressivos de casos da doença, os critérios para a seleção dos casos estudados incluíram também questões fundamentais como a alta densidade populacional, a importância da economia e sistemas de saúde com expressiva presença estatal e diferentes padrões – é o caso dos três representantes da Europa, que possuem amplos sistemas públicos de saúde de cobertura universal, mas com modelos distintos entre si.

Os eixos de análise contemplaram contextos e características dos países e sistemas de saúde pré-pandemia; organização prévia e relações entre os sistemas nacionais de vigilância em saúde e de atenção à saúde; governança dos países na resposta à pandemia; panorama das estratégias suprassetoriais dos países no enfrentamento da pandemia; respostas dos sistemas de saúde à pandemia; condicionantes, aspectos positivos e limites das estratégias adotadas para o controle da pandemia; desafios, aspectos críticos e lições para os sistemas públicos de saúde, especialmente nos países em desenvolvimento.

As técnicas de pesquisa utilizadas para subsidiar os estudos foram principalmente a revisão bibliográfica, a análise documental e a análise de dados secundários, tendo como base as fontes de acesso público e irrestrito. “Após analisar cada caso em profundidade, nós realizamos uma análise comparada, que nos permitiu identificar condicionantes significativos da resposta nacional frente à Covid-19, incluindo os histórico-estruturais e os político-institucionais. A identificação desses condicionantes nos ajuda a compreender melhor as diferenças e semelhanças entre os casos e nos dá pistas de caminhos que devemos seguir para nos preparar melhor para futuras emergências sanitárias”, destaca Adelyne Pereira.

A coletânea compreende 11 capítulos. O primeiro dedica-se a uma breve caracterização dos países estudados, a partir de indicadores demográficos, socioeconômicos e sanitários, com uma apresentação da evolução da pandemia nesses locais ao longo de 2020 até o início de abril de 2021. Em seguida, os capítulos 2 e 3 abordam os casos asiáticos, China e Coreia do Sul, países que apostaram em medidas contundentes de controle, envolvendo restrições à circulação de pessoas e vigilância em saúde, testagem em larga escala, isolamento de casos, além de rastreamento de contatos e quarentena.

Nos capítulos 4, 5 e 6 são analisados os três países europeus: Alemanha, Espanha e Reino Unido, com seus sistemas de saúde de cobertura abrangente cujos desempenhos diante da pandemia foram distintos. Alemanha e Espanha se destacaram pelos esforços de investimentos, governança e coordenação nacional da resposta em sistemas descentralizados. Já o capítulo sobre o Reino Unido registra o efeito da hesitação política na capacidade de resposta à crise, mesmo com o país contando com um sistema público de saúde considerado universal e eficiente.

O caso do Canadá está presente no capítulo 7, que identifica os fatores que explicam a resposta bem-sucedida do país à pandemia: intensa coordenação nacional e regional, articulação de variadas medidas de proteção social e investimentos em um sistema de saúde já caracterizado por seu caráter público, universal e abrangente.

Os três países latino-americanos são abordados nos capítulos 8, 9 e 10: México, Argentina e Brasil, respectivamente. No caso mexicano, limites político-institucionais e a fragmentação do sistema de saúde interferiram no enfrentamento da pandemia. Já a Argentina teve melhor desempenho em termos da coordenação nacional da resposta em 2020, mas registrou uma assustadora onda de crescimento de casos no início de 2021. No Brasil, a análise se estende até o final do primeiro semestre de 2021, mostrando as muitas contradições e insuficiências do país, apesar da existência do SUS, de caráter público e universal.

Lições para que a catástrofe não se repita

O último capítulo destaca elementos de similaridades e diferenças entre os casos, além de identificar fatores que favoreceram ou dificultaram a efetividade da resposta dos países à pandemia, deixando lições e sugerindo, mesmo que de forma preliminar, algumas recomendações relativas ao fortalecimento dos sistemas públicos de saúde. O livro é marcado por tabelas, quadros, gráficos e figuras que ilustram os dados comparativos entre os países de forma objetiva, mostrando a evolução, os números, as respostas, as ações e demais informações. O quadro principal do capítulo final exibe uma comparação geral entre os nove países estudados, a partir de três importantes dimensões: a densidade das estratégias de governança e coordenação nacional; a abrangência das medidas de contenção e mitigação da pandemia; a capacidade de resposta dos sistemas de saúde.

Segundo Carlos Machado, coordenador do Observatório Covid-19 Fiocruz, a parte final do livro sistematiza as diferentes e relevantes lições trazidas pelo nove países analisados e suas características. São ensinamentos que podem preparar os países para emergências sanitárias que afetam profundamente as sociedades. Essas lições são, segundo os organizadores, resumidas em torno de sete eixos: governança e coordenação nacional; controle da propagação da pandemia; fortalecimento do sistema de saúde; desenvolvimento científico e tecnológico; proteção laboral, social e econômica; comunicação com a sociedade; diplomacia e cooperação global em saúde.

Em um contexto de números alarmantes de vítimas da Covid-19 (em março de 2022, o mundo ultrapassou a marca de seis milhões de mortes, enquanto o Brasil chegou a mais de 660 mil mortos), o e-book Políticas e Sistemas de Saúde em Tempos de Pandemia: nove países, muitas lições joga luz sobre a urgência na compreensão dos muitos fatores envolvidos no enfrentamento de uma pandemia tão complexa e em permanente mutação – não apenas do vírus, mas também das respostas exigidas. “As desigualdades entre os países mais uma vez foram evidenciadas, sinalizando possibilidades e perspectivas muito diferenciadas para a superação da emergência sanitária e da grave crise que a acompanha, de caráter multidimensional. Impõe-se, portanto, o compromisso científico, político e ético de compreender a catástrofe atual e, sobretudo, construir caminhos para que ela não se repita”, enfatizam os pesquisadores.

Organizadores

A médica Cristiani Vieira Machado é doutora em Saúde Coletiva, com pós-doutorado em Ciência Política na University of North Carolina at Chapel Hill, nos Estados Unidos. É professora e pesquisadora da Ensp/Fiocruz e é a atual vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A enfermeira Adelyne Maria Mendes Pereira é doutora em Saúde Pública, com pós-doutorado em Saúde Global na Universitat de les Illes Balears, na Espanha. É professora e pesquisadora da Ensp/Fiocruz.

O historiador Carlos Machado de Freitas é doutor em Saúde Pública, com pós-doutorado pelo Programa de Ciências Ambientais da Universidade de São Paulo (USP). É professor e pesquisador da Ensp/Fiocruz, onde coordena o Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes/Ensp). É editor científico da Editora Fiocruz e coordena o Observatório Covid-19 Fiocruz.

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