Uma seca pode comprometer a alimentação, reduzir a renda e dificultar o acesso ao atendimento de saúde ao mesmo tempo. Se medidas de controle de uma epidemia restringem a circulação nesse cenário, seus efeitos se somam a problemas anteriores e podem agravá-los. Para as famílias, essas pressões chegam juntas, embora os governos frequentemente organizem suas respostas em ministérios, orçamentos e programas separados.

Essa distância entre a experiência das populações e a organização das políticas públicas é o tema do artigo Whose crisis is it? Local experiences and health governance in the era of polycrisis — em tradução livre, “De quem é a crise? Experiências locais e governança em saúde na era da policrise”. Publicado em 5 de maio de 2026 na revista BMJ Global Health, o texto é assinado por Jacinta Mwikali Nzinga, Maryse Kok, Joanna Raven e Miriam Taegtmeyer, pesquisadoras vinculadas à Liverpool School of Tropical Medicine, com vínculos adicionais de Nzinga e Kok a instituições no Quênia e no Malawi, respectivamente. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

As autoras defendem que o enfrentamento de crises interligadas exige uma governança capaz de conectar saúde, alimentação, água, meios de subsistência, educação e proteção social. A proposta combina coordenação entre setores e entre níveis de decisão, com participação das comunidades na definição de prioridades e no planejamento das respostas.

O artigo é um comentário analítico, submetido à revisão externa por pares. Seu argumento se apoia na interpretação da literatura e em exemplos de pesquisas anteriores, sobretudo sobre a Somália, o norte do Quênia e o Zimbábue. Não apresenta uma nova pesquisa de campo nem mede a eficácia dos arranjos de governança propostos.

Quando a crise faz parte do cotidiano

O conceito de policrise descreve situações em que diferentes crises interagem, produzem efeitos em cadeia e se amplificam. Nessa perspectiva, a dificuldade não se resume à ocorrência simultânea de uma pandemia, de um desastre climático e de uma instabilidade econômica: as relações entre esses processos podem agravar seus impactos e fazer com que uma resposta a determinado problema dificulte a solução de outro.

As pesquisadoras questionam, porém, a ideia de que essa sobreposição represente uma condição inteiramente nova para todas as sociedades. Para muitas comunidades em contextos de baixa renda, a combinação de insegurança, escassez de recursos, precariedade econômica e interrupções de serviços acompanha a vida cotidiana há muito tempo. O artigo utiliza o termo “permacrise” para designar esse estado crônico de pressões e choques que se intensificam.

A partir dessa distinção, o texto desenvolve a perspectiva da “policrise situada”. O foco recai sobre a maneira como acontecimentos globais se encontram com vulnerabilidades preexistentes em cada lugar. Isso permite examinar quem sofre os efeitos mais intensos, quais necessidades recebem reconhecimento institucional e como diferentes grupos conseguem responder.

Na Somália, segundo a literatura mobilizada no comentário, a covid-19 se tornou inseparável da seca, dos deslocamentos populacionais, da insegurança e da precariedade econômica. A pandemia passou a integrar um conjunto de dificuldades já presentes, em vez de ser vivida como uma emergência sanitária isolada.

No norte do Quênia, o artigo ilustra essa combinação a partir das condições enfrentadas por famílias que vivem da criação de animais: secas que matam o rebanho, desnutrição infantil, ausência de profissionais na unidade de saúde mais próxima e insegurança no trajeto até o mercado. Durante a pandemia, o fechamento de fronteiras agravou essas pressões.

O exemplo do Zimbábue explicita a distribuição desigual dos impactos. A convergência entre a covid-19 e secas recorrentes ampliou as dificuldades de mulheres rurais para obter alimentos, água e lenha. Ao mesmo tempo, elas enfrentaram aumento do custo de vida, mais responsabilidades de cuidado, violência doméstica e menor acesso a serviços de saúde. Gênero, classe e localização geográfica, portanto, alteram a forma como as crises são vividas.

Coordenação além do setor de saúde

Para as autoras, a preparação e a resposta governamental permanecem frequentemente fragmentadas. Cada órgão atua dentro de suas atribuições e de seu orçamento, enquanto a população depende simultaneamente de diferentes serviços e condições de vida. Uma intervenção restrita à assistência à saúde pode deixar sem resposta outras pressões que afetam a saúde das famílias.

O comentário também identifica obstáculos políticos à colaboração. Agências disputam recursos e visibilidade, e os incentivos para resultados de curto prazo dificultam a continuidade do trabalho conjunto. Embora a ação multissetorial seja defendida há décadas, sua adoção prática permanece limitada, segundo a análise.

A fragmentação pode gerar efeitos contraditórios. O artigo observa, por exemplo, que intervenções de curto prazo voltadas à segurança alimentar podem pressionar recursos hídricos ou desorganizar mercados locais. Por isso, a avaliação das respostas precisa considerar suas consequências sobre outros setores e sobre os grupos afetados.

A alternativa proposta é ampliar o olhar dos “sistemas de saúde” para os “sistemas para a saúde”. A expressão designa arranjos que conectam as instituições responsáveis pelo atendimento aos demais sistemas que influenciam a saúde. A distinção tem uma consequência operacional: criar meios compartilhados de identificar riscos, decidir ações, distribuir responsabilidades e mobilizar recursos.

Entre os instrumentos sugeridos estão alertas precoces que combinem dados climáticos, preços de alimentos e informações de saúde. A ocorrência conjunta de uma onda de calor e de uma alta nos preços dos alimentos, por exemplo, poderia acionar uma resposta coordenada, a partir de critérios previamente acordados.

As autoras propõem ainda definir, antes das emergências, o que caberá a ministérios, governos locais, organizações comunitárias e atores privados, assim como os recursos que serão utilizados. O financiamento local flexível e o planejamento construído com as comunidades também aparecem entre os componentes da proposta. O texto apresenta essas medidas como caminhos a desenvolver e testar, sem estabelecer um modelo único de execução.

Apoiar as comunidades sem ampliar desigualdades

A experiência da pandemia também mostra, na leitura das pesquisadoras, que as comunidades articulam respostas entre setores quando o apoio institucional é insuficiente. O artigo menciona a produção de máscaras, o compartilhamento de alimentos, a formação de redes de cuidado e o apoio educacional como formas de adaptação coletiva.

Essas iniciativas expressam solidariedade e capacidade de organização, mas também tornam visíveis lacunas na atuação das instituições. As autoras alertam que redes informais podem ser frágeis e desiguais: alguns moradores ficam excluídos, outros assumem uma carga maior de trabalho, e a escassez de recursos pode gerar competição.

Reconhecer a ação comunitária, assim, exige considerar quem participa, quem recebe apoio e quem sustenta as atividades. O comentário rejeita a suposição de que as respostas locais sejam sempre positivas ou suficientes por si mesmas. Sua proposta é que os arranjos de governança apoiem, coordenem e protejam essas iniciativas, com salvaguardas contra exclusão, desinformação e distribuição desigual das tarefas.

A participação das comunidades também deve alcançar a elaboração das respostas. Construir soluções conjuntamente, segundo as autoras, pode ampliar a presença dos grupos mais vulneráveis nas decisões e aproximar as estratégias institucionais de suas necessidades e prioridades.

Essa articulação envolve várias escalas: comunidades e municípios, instituições nacionais e organismos globais. O nível local recebe atenção porque é onde as pressões se encontram na vida das pessoas, mas a proposta depende de vínculos com outras instâncias de decisão. A coordenação deve permitir que iniciativas de diferentes setores e níveis de governo se reforcem.

O que a pesquisa precisa investigar

O artigo propõe que a pesquisa em sistemas de saúde examine como combinações de crises se manifestam em diferentes lugares e como as respostas conjuntas funcionam na prática. Isso inclui identificar os pontos em que a coordenação falha, as lacunas de apoio e as consequências dos arranjos adotados para a distribuição dos riscos e dos recursos.

Outra frente é investigar o trabalho de pessoas e organizações que fazem a ligação entre departamentos governamentais, autoridades locais, grupos comunitários e atores privados. Segundo as autoras, essas funções de articulação já existem informalmente em muitos contextos, mas raramente recebem reconhecimento ou apoio. Compreender sua atuação pode ajudar a explicar tanto a continuidade das respostas quanto suas fragilidades.

A proposta também prevê aprendizagem regular antes, durante e depois das emergências. Em termos práticos, isso significa avaliar o que funcionou, o que precisa mudar e como incorporar a avaliação dos moradores às decisões. As pesquisadoras defendem canais acessíveis de retorno das comunidades e mecanismos para que os responsáveis pelas políticas utilizem essas informações.

Para o debate brasileiro sobre o SUS e a regionalização, embora o Brasil não seja objeto da análise, essa abordagem permite formular uma questão: como conectar o planejamento da atenção à saúde às políticas de água, alimentação, renda e proteção social nos territórios? Essa aproximação decorre da leitura do artigo; o texto não avalia arranjos brasileiros nem apresenta evidências sobre sua aplicação no país.

As propostas compõem uma agenda de pesquisa e de organização das políticas, e não a comprovação de um modelo já validado. O artigo não compara intervenções, estima custos ou quantifica ganhos de saúde. A tarefa que coloca para pesquisadores e gestores é desenhar, testar e adaptar formas de coordenação que funcionem também entre as emergências, quando as pressões sobre a vida cotidiana permanecem.

Artigo original: Nzinga, J. M.; Kok, M.; Raven, J.; Taegtmeyer, M. Whose crisis is it? Local experiences and health governance in the era of polycrisis. BMJ Global Health, v. 11, n. 5, e023610, 2026.

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