O e-book Panorama da APS no SUS: Censo Nacional das UBS 2024, lançado pelo Ministério da Saúde com participação da Fiocruz, dedica um capítulo específico à incorporação de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na Atenção Primária à Saúde (APS). O retrato que emerge é ambivalente. A digitalização da rede avançou de forma significativa nos últimos anos, mas ainda não alterou de maneira estrutural os fluxos assistenciais nem consolidou a integração entre os diferentes pontos da rede.
O censo mostra que 61,3% das Unidades Básicas de Saúde (UBS) estão classificadas nos níveis “bom” ou “ótimo” de incorporação de TIC. O dado sugere que a informatização deixou de ser exceção e passou a compor o cotidiano da maior parte da rede. Entretanto, quando se observam as condições concretas de conectividade e uso das ferramentas, o cenário revela limites relevantes.
Apenas 65,1% das UBS declararam possuir internet com qualidade suficiente para execução das atividades da APS. Em outras palavras, mais de um terço da rede opera com conexão considerada inadequada. O problema se agrava quando se analisam áreas estratégicas dentro das próprias unidades. A conexão é menos frequente em espaços como farmácia, sala de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e sala de vacina — ambientes centrais para registro de dados, controle de estoques e acompanhamento territorial.
Conectividade ampliada, uso ainda restrito
A digitalização formal das UBS não se traduz automaticamente em reorganização do cuidado. O censo indica que 93,8% das unidades ainda realizam agendamentos predominantemente de forma presencial. Embora a presença física seja componente importante da APS, a dependência quase exclusiva desse formato revela que os canais digitais não estão plenamente incorporados como estratégia de ampliação do acesso.
No campo da telessaúde, 39% das UBS informaram realizar alguma atividade nessa modalidade. No entanto, apenas 13% realizam teleconsultas. A diferença entre “alguma atividade” e consulta clínica propriamente dita evidencia que a teleassistência ainda ocupa posição periférica na rotina da atenção primária.
O compartilhamento de prontuário eletrônico com outros pontos da rede é outro indicador crítico. Somente 17% das UBS relataram compartilhar prontuário eletrônico com serviços que não sejam outra UBS. Isso significa que, na maior parte do território, o histórico clínico do usuário não circula de forma integrada entre atenção primária, especializada e hospitalar. A consequência é a fragmentação da informação e a repetição de procedimentos diagnósticos.
O censo também revela que 47,8% das unidades possuem equipamentos para webconferência. A presença desse recurso, que poderia fortalecer matriciamento, apoio especializado remoto e educação permanente, ainda não alcança metade da rede. A digitalização, portanto, avança de forma desigual e não garante, por si só, coordenação assistencial.
Interoperabilidade e coordenação do cuidado
A APS é responsável por coordenar o cuidado ao longo da trajetória do usuário no sistema de saúde. Para cumprir essa função, a circulação de informações clínicas entre serviços é decisiva. A baixa interoperabilidade apontada pelo censo expõe um gargalo estrutural.

Sem prontuário compartilhado e sem integração digital entre níveis assistenciais, a coordenação depende de mecanismos tradicionais, como guias físicas de encaminhamento e comunicação informal entre profissionais. Embora esses instrumentos façam parte da história do SUS, eles se mostram insuficientes diante da complexidade atual do cuidado, especialmente no manejo de doenças crônicas e condições que exigem acompanhamento contínuo.
A limitação tecnológica também impacta a regulação do acesso à atenção especializada. O documento registra diferenças regionais nos mecanismos de marcação de consultas e encaminhamentos. Em algumas regiões, a regulação centralizada pela UBS é predominante; em outras, o usuário ainda precisa realizar parte do processo de forma direta. A ausência de sistemas plenamente integrados dificulta a padronização e a transparência desses fluxos.
A digitalização da APS, nesse contexto, não deve ser compreendida apenas como modernização administrativa. Trata-se de instrumento potencial para reorganizar a lógica da rede. Sistemas interoperáveis poderiam reduzir tempo de espera, evitar duplicidade de exames, aprimorar a vigilância epidemiológica e fortalecer a longitudinalidade do cuidado.
O censo sugere que a incorporação de TIC avançou mais rapidamente do que a consolidação de infraestrutura estável e interoperável. O desafio não é apenas ampliar a presença de computadores e sistemas, mas assegurar conectividade de qualidade, capacitação das equipes e integração entre plataformas.
Outro ponto relevante é a desigualdade territorial. Municípios de menor porte ou com menor capacidade fiscal tendem a enfrentar maiores dificuldades na contratação de serviços de internet de qualidade, na manutenção de equipamentos e na atualização de sistemas. A digitalização, se não acompanhada de política federativa consistente, pode reproduzir ou aprofundar disparidades já existentes.
O Panorama da APS no SUS: Censo Nacional das UBS 2024 indica que a transformação digital na atenção primária está em curso, mas ainda distante de reorganizar estruturalmente o modelo assistencial. A maior parte das unidades já dispõe de algum nível de informatização; entretanto, conectividade instável, baixo compartilhamento de dados e uso restrito da telessaúde limitam o potencial de integração.
A APS brasileira alcançou alta capilaridade territorial e consolidou papel estratégico no SUS. O próximo passo, segundo os dados do censo, é converter a digitalização formal em coordenação efetiva do cuidado. Isso exige investimento contínuo em infraestrutura tecnológica, interoperabilidade nacional e formação das equipes para uso qualificado das ferramentas digitais.
No contexto da atenção primária, a digitalização da saúde é meio para fortalecer vínculo, garantir continuidade assistencial e reduzir desigualdades no acesso. O censo oferece, pela primeira vez em escala nacional recente, indicadores que permitem acompanhar esse processo com base empírica. A forma como esses dados serão utilizados nas decisões federativas poderá definir se a transformação digital se tornará eixo estruturante da APS ou permanecerá como camada adicional sobre um sistema ainda fragmentado.
